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Vida de um Cinéfilo

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The Shape of Water (A Forma da Água, 2017) - Crítica

   Durante a Guerra Fria, Elisa, uma funcionária muda recém-chegada a um centro de investigação americano, face a novas descobertas e perigos, desenvolve uma afetuosa relação com uma criatura anfibiana humanoide, disputada entre a América e a União Soviética.

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     O filme foi escrito e realizado pelo mexicano Guillermo del Toro, uma mente extremamente imaginativa que opta mais uma vez por desenvolver personagens e um conflito dentro do seu mundinho pessoal de monstros bizarros, porém acompanhado de um romantismo maravilhoso e uma força narrativa pouco vista nos romances de hoje, tanto literal como metaforicamente, e apesar deste ser o seu primeiro romance. Sim, The Shape of Water é uma fantástica história de amor entre uma mulher e um monstro aquático, uma relação inter-espécies que certamente desagradou e desagradará muita gente. Eu estava interessado depois dos comentários que forma feitos, declarando-o como o melhor filme do realizador até hoje. E no fim, apreciei e amei toda aquela magia. Se não se imaginam a ver um filme destes, nem se sequer se aproximem, para não estragar.

     Para além de uma história mágica, o filme conta ainda com uma belíssima recriação de época, a começar pela atenção na composição do apartamento da protagonista, desde as figurações cénicas, objetos, mobília e, claro, o ótimo guarda-roupa do português nomeado Luís Sequeira. A paleta visual é complementada pela fotografia do Dan Laustsen que desenvolve um universo sombrio, sujo, chuvoso, ainda assim como lindas estratégias de iluminação e de saturação de cor, oscilante entre tons acastanhados e acinzentados escuros do ambiente e o verde-água e azul tão típicos da criatura.

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    E por falar nela, o anfíbio humanoide é uma deslumbrante mistura de maquilhagem e efeitos visuais, mas não menos impressionantes que a fisicalidade e a enorme expressividade do Doug Jones, que se tornou no muso do Guillermo del Toro. Ele tem uma linda capacidade de transmitir emoções até com grunhidos, é um trabalho de deixar cair o queixo.

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    Quanto à história em si, há que reconhecer que se a produção optasse por outro poster, o filme podia ser menos previsível para quem o fosse ver às cegas, como eu geralmente prefiro fazer. Sabendo o que já sabia antes de o ver, foi-me ainda possível apreciar o filme como devia. Existem tantas coisas que se podem apreciar aqui que fica impossível reclamar. O Guillermo del Toro opta por não dar atenção a arcos que podiam ter se intrometido demais (com exceção de uma característica da protagonista que merecia mais atenção) enquanto desenvolve um retrato significativamente importante sobre aquele período. O filme fala sobre racismo, obsessão, a paranoia típica daquela época e maldade humana. Contudo, o foco principal é sem dúvida o amor, enquanto uma reflexão filosófica que, como vemos, pode surgir de várias maneiras. Assim, o filme aborda homofobia, a importância de assumir a identidade sexual, maus relacionamentos, casamentos falhados, falta de amor, e muito mais.

   E as interpretações são todas impecáveis. A Sally Hawkins dá facilmente a melhor performance da sua carreira. A Elisa é uma personagem fascinantemente apaixonada, tímida, atrapalhada, querida, suave, delicadamente provocadora, mas inocente, uma inocência que progressivamente morre. O público acompanha-a assim que a vê e apoia todas as suas decisões. O afeto pela criatura é instantâneo e a química entre ela o Doug Jones é uma das melhores do ano.

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  O Michael Shannon está impiedoso como um chefe de segurança completamente desequilibrado. Ele é essencialmente maldoso, é um dos personagens humanos mais assustadores de 2017, sem exagero. Apesar do carisma que o ator transmite normalmente, torna-se impossível não o odiar ou temer pela sua maldade, insensibilidade e desumanidade. O Michael Stuhlbarg está sensacional! É importante não revelar nada sobre a sua interpretação para evitar spoilers, mas ele trabalha muito bem a sua mudança de convicções e comportamentos, mantendo uma presença muito forte.

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    O Richard Jenkins não merecia uma nomeação ao Óscar mais que o Michael Shannon ou que o Michael Stuhlbarg, mas está ótimo como sempre. É um personagem mais comovente, amigável, atrapalhado, ingénuo, bem-intencionado e sofrido do que o ator costuma fazer.

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     A Octavia Spencer está hilariante como eu nunca a vi! A sala inteira ria com ela, graças ao seu carisma imediato, à sua postura calorosa e atenciosa e à sua personalidade forte. No entanto, também não merecia uma nomeação mais que outras atrizes.

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   A banda sonora do francês Alexandre Desplat é a delicadeza em forma de música. O compositor do The Grand Budapest Hotel mais uma vez compõe melodias suaves e charmosas que acompanham perfeitamente a magia do filme, juntamente com os seus momentos mais sombrios, tensos e negros.

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    The Shape of Water é uma maravilhosa e única história de amor. O Guillermo del Toro novamente afirma-se como um realizador autoral e apaixonado e utiliza o seu elenco e a bagagem técnica de maneira impecável. Corram para o cinema!

 

Nota: A

 

Também podes ler a crítica no Cinema Pla'net.

Aproveita para ver mais críticas de filmes de 2017 aqui.

 

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