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Vida de um Cinéfilo

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The Sisters Brothers – western à francesa

A morte iminente do clássico faroeste americano é um fenómeno cada vez mais consolidado. É preciso que os pais do cinema venham salvar isto tudo.

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“The Sisters Brothers” não só é um título curioso, mas também o projeto que (como outros tantos) ressuscita minimamente a esperança de o género cinematográfico dos cowboys voltar a conquistar públicos. No passado LEFFEST, Jacques Audiard falou sobre o jantar que teve com Joel Coen, um dos autores responsáveis pela sobrevivência dos westerns, recentemente consolidada por “The Ballad of Buster Scruggs”. No entanto, é importante realçar: por muito que gostemos de filmes como “Il buono, il brutto, il cativo” e “C’era una volta il West”, o cinema de autor moderno reserva muitas possibilidades para que os pistoleiros solitários continuem a cavalgar por esses imensos terrenos, sem jamais deixar que sensação de repetição e esgotamento esteja presente. E o filme do realizador francês é a mais recente prova.

Depois de contar histórias de crime como “Sur mês lèvres” e “Un prophète”, Jacques Audiard concretiza o seu desejo de contar uma que decorra no oeste americano. E, como no caso do estreante S. Craig Zahler, em “Bone Tomahawk”, as armas de um artista autoral e deslocado são, muitas das vezes, as melhores para se oferecer a um género, digamos, esquecido (para não dizer subestimado). Com uma abordagem cómica declarada, insinuações de uma extrema violência e imagens especificamente gráficas, “The Sisters Brothers” torna-se, deste modo, num dos melhores filmes do ano. Baseado no livro homónimo do canadiano Patrick DeWitt, publicado em 2011, a premissa começa em 1850, no estado de Oregon, e acompanha dois irmãos encarregados de matar um famoso químico e prospetor de ouro.

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Esteticamente falando, o filme não destoa muito do que estamos à espera: uma fotografia calorosa e flavescente que posiciona os protagonistas na frente dos locais do conflito e no meio de sequências de ação bem coreografas, auxiliadas por um trabalho de câmara simultaneamente minimalista e ágil. Há um lindo e efémero plano em particular transitório entre cenas que inclui apenas um personagem a dar uma informação, acompanhado unicamente pelo fumo do cigarro e pelo massivo escuro atrás de si. Aliás, ao contrário de “Hostiles”, do Scott Cooper, “The Sisters Brothers” sabe usar o escuro a seu favor. Sobretudo o dos desertos e florestas. A quase inexistente iluminação em cenas noturnas está na medida certa. Para além de desenvolver a ambientação de um perigoso e inexorável espaço, a música do Alexandre Desplat contribui imenso para equilibrar as mudanças de tom e de visual. Depois de “The Grand Budapest Hotel” e “The Shape of Water”, o francês faz novamente um trabalho impecável (fiquem para escutar a maravilhosa música dos créditos finais). Tematicamente falando, típica de filmes recheados de violência, uma das primeiras camadas encontradas é a de um divertido western bang-bang. No entanto, o foco aqui não é idêntico ao do recente remake de “The Magnificent Seven”. O propósito não é apenas entreter, mas sim contar uma história profunda e emotiva sobre dois irmãos que exploram os seus demónios e habilidades destrutivas, assim como as possibilidades de redenção que aparecem no fim de uma carreira que fora além das suas ambições juvenis.

Sugerido: The Shape of Water (A Forma da Água, 2017) - Crítica

Com o mérito do autor original (claro), mas também do Jacques Audiard e do Thomas Bidegain, “The Sisters Brothers” beneficia-se de um texto que, por sua vez, eleva as interpretações. O filme fala sobre a particularmente fortíssima ligação entre irmãos, família, os maus genes que herdamos (partindo para temas como alcoolismo e violência doméstica), a falta de companheirismo conjugal, dinheiro, ganância, o sonho e oportunismo americano e o sentido geral de moralidade. Posto isto, havia vastas maneira de o filme progredir e de terminar. “The Sisters Brothers” é um filme, sobretudo, agradavelmente imprevisível.

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E sustentando um excelente material está um excelente elenco. Destaque obviamente para o duo principal. Estes são temidos e impiedosos assassinos, porém fundamentalmente compostos por um carisma abundante. O John C. Reily ganhou o mundo no final de 2018. De todas as suas prestações, esta certamente é uma das melhores. Como um irmão mais velho, observamos uma figura quase paternal, um homem cheio de intuições benevolentes e boas intenções, que sai quase sempre prejudicado pela imaturidade e descontrolo do irmão. É um assassino contratado, está certo, mas o ator vende perfeitamente o lado meigo, sensível, fragilizado e até eticamente flexível do personagem. Diga-se que este tem um charme contraditório à sua profissão. No entanto, como o público espera, é um homem que, nos momentos mais críticos, faz um autêntico espetáculo com uma arma.

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O Joaquin Phoenix está igualmente ótimo. Cheio de demónios disfarçados de típicos e broncos comportamentos constituintes de uma masculinidade autodestrutiva e um vício desmedido. Mesmo sendo o irmão mais novo, este assegura o leme na maior parte dos conflitos e demonstra consequentemente uma apatia amedrontadora e até sádica, característica de um passado trágico e, por isso, útil na prática de atos de extrema violência, mantendo uma postura de superioridade arrogante e maliciosa.

É uma pena que o Jake Gyllenhaal receba inúmeros papéis que pressupõem uma imediata personalidade carismática sem receber qualquer, digamos, personalidade. O ator é um dos melhores em atividade, não haja dúvidas, mas o personagem não tem quaisquer elementos distintos. São pouquíssimos os momentos que me farão lembrar dele neste filme. A única coisa mais marcante é a narração acentuadamente presente no primeiro ato, que, mesmo não absolutamente necessária, não é excessiva e conduz bem a narrativa.

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O Riz Ahmed, desta vez, fez um bom trabalho, mesmo sendo ainda um ator com necessidade de amadurecer. O personagem é facilmente manipulado, mas gradualmente revela um lado mais inteligente, mantendo uma postura fisicamente seca e fraca.

A Rebecca Root não faz muita coisa, mas está competente. Já o Rutger Hauer não faz absolutamente nada. Faz uma aparição de segundos (um cameo basicamente) e não é dada sequer nenhuma profundidade ao personagem. Tudo o que sabemos sobre ele é expresso verbalmente, ficando tudo subentendido. Ele não é o antagonista principal, mas uma figura supostamente temida pelos protagonistas. Desperdício de talento.

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“The Sisters Brothers” tem quantidades bem dosadas de humor, drama, violência e lição moral. É o filme da vez que se encarrega por contar uma boa história no western americano, caminhando por territórios distintos, nomeadamente uma interação entre os dois personagens inclusiva de uma maior comicidade e uma exploração introspetiva e surpreendentemente emotiva do elemento humano.

 

Nota: A-

 

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