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Vida de um Cinéfilo

Vida de um Cinéfilo

The Sopranos S1 – revestido a penumbra

Manuseando o negro volante ao serviço de um etariamente estimado automóvel, composto por uns possantes membros superiores, imponente e despreocupado duplo queixo e toucado descabelado, aduzido por fios e colares de ouro igualmente requintados e sujos e uma grossa névoa de fumo parida por um possivelmente ilegal charuto de coleção, a expressão do trono de um poderoso patriarca contemporâneo resume a personalidade de Tony Soprano, afixado na estabelecida e disputada supremacia familiar e deslocando-se desde a escuridão do túnel, pelas capitalistas autoestradas e ruas nova-iorquinas, observando simbólica e autoritariamente as eventuais sinalizações rodoviárias, arranha-céus, aviões de partida, cadeias de fast-food, catedrais, cemitérios, fábricas, enferrujadas linhas férreas, lojas de conveniência, pontes, rios turvos e polutos, talhos, o por ora erguido World Trade Center, a reluzente Estátua da Liberdade, o petróleo queimado pelo sol e o movimento quotidiano indiciário de gerais elementos inferiores da sociedade que, com certeza, se consciencializarão a cada iminência ou proximidade do predador italo-americano pelas sossegadas localidades. A territorialização de Bloomfield, Brooklyn, Manhattan, Newark, Nova Iorque, Nova Jérsia, Paterson pelas diferentes e sonantes dinastias emigrantes ocorre há décadas, definindo uma ascendente, embora decadente e maculada América. Tamanha ameaçada autoridade e, nos mais desesperados ou monstruosos atos, psicopatia não demonstram as alegadas isenções de repressão emocional e consequentes abismais inseguranças, que cautelosamente cada mestre mafioso pretende encobrir, rezando, praticamente se ajoelhando perante os céus e as raízes étnicas que lhe salvem da vergonha que é revelar humanidade. Ou pior, quebras na perceção alheia de masculinidade. Só a sensação de paz e descanso surgem quando, percorridas todas as humildes residências do cidadão de classe média/baixa onde a bandeira é esteada, se sobe pelos serenos arbustos e se estaciona a ensanguentada carrinha à porta de uma majestosa mansão, de um desassombrado covil revestido a penumbra.

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Diretamente da mente de David Chase, criador de “Almost Grown” (série da CBS, dos anos 80), responsável por uma única longa-metragem no cinema – “Not Fade Away”, de 2012 –, o título “The Sopranos” percorre as bocas dos amantes de televisão e, se quisermos fazer as honras, dos de cinema. Na mesa de debate dos dias atuais, muito se discute se se verifica, de facto, um maior valor cinematográfico na produção de séries fictícias (nos parâmetros de narrativa, oferta técnica, ambiguidade interpretativa, elementos visuais e a presença de complexidades morais nos arcos de personagens). Fácil, indiscutível e objetivamente se conclui que sim. Cada vez mais observamos a dedicação temática e técnica por detrás das nossas histórias televisivas favoritas. A televisão como a conhecíamos, assente sobretudo em tradicionais sitcoms (na sua generalidade com ótimos personagens e uma quase inexistente conexão entre cada episódio) e em dramas prolongadamente recicláveis, perdeu popularidade na competição contra a oferta interminável e maniacamente impossível de acompanhar fabricada por empresas como a Amazon, a Hulu, a FX, a AMC, e, claro, a abelha rainha do streamingNetflix. Presentemente com as mãos na massa e, decerto, com um lugar reservado na colmeia estão companhias como o Facebook, a Apple e a Disney. Portanto, em suma, atingiu-se o auge da televisão nesta segunda década do século. O cinema, como era conhecido nos anos 50, começou a perder público para uma tecnologicamente misteriosa, porém mágica caixinha destinada ao centro da sala de estar nas casas de todo o globo. Depois de uma resiliente luta de décadas por parte dos estúdios de Hollywood (vencida na eventualidade), a função do entretenimento até então ocupada pelo cinema permanece nas mãos da televisão. E, dado o decadente estado de seriedade do maioritário público consumidor do cinema mais oco e repetitivo, melhor seria difícil.

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Contudo, quando começou tudo exatamente? Alguns canalizam os méritos para a AMC, com eternos programas de relevo e influência internacional como “Mad Men” e “Breaking Bad”. Por outro lado, ainda que os Emmys sublinhem o merecido altar, pouco se recorda de uma série definitiva para o transporte dos valores cinematográficos para o pequeno ecrã de bordas arredondadas, árdua adaptação ao evolutivo trabalho de câmara e de perceção pouco aberta a mudança. É bem verdade (até hoje) que o público americano (e não só) não se cansa de histórias de gangsters e mafiosos. Os diferentes cenários sociopolíticos vividos no século passado demonstraram ser fortes autores na cozinha de histórias fictícias de crime organizado em grandes cidades nas mãos de famílias, sobretudo, italianas. “The Sopranos” oferece tudo aquilo que um fã de filmes como a trilogia “The Godfather”, “Scarface” e “Goodfellas” pode aguardar de uma premissa nada remota às dos referidos clássicos dos anos 70, 80, 90 (curiosamente graças à consistência de oportunas menções aos mesmos). No entanto, nada superioriza a quantidade de sofisticação temática que tão bem constitui o programa mais galardoado da História.

Entre amigos, primos, tios, sobrinhos, esposas, filhos e filhas, detetives, polícias, padres, strippers, prostitutas, mães e a ausência de pais, damos primeiramente de caras com o atual patriarca em inconvenientes e maçadores confrontos pelo poder familiar – Anthony John Soprano, católico romano nascido em 1959, no bairro de Newark, rapaz entre 2 irmãs e neto de um imigrante da comuna italiana de Avelino. Contra a sua vontade, após um inexplicável ataque de pânico no quintal no dia do aniversário do filho, é-lhe receitada uma série de habituais sessões com uma psicóloga – Jennifer Melfi –, também ela uma descendente de italianos. Uma das poltronas do desconhecido gabinete é hesitantemente ocupada pela pesada figura de excelência provinda de uma manchada e nociva soberania. Numa arrogante condição simultaneamente escondida e evidenciada (diria até ostentada), autora presunçosa de um invejável estilo de vida desmedidamente consumista sustentado por incertas labutas, encarregada do comando das herdadas e batalhadas atividades criminosas nas redondezas urbanas, do mais conflituoso bairro ao mais luxuoso subúrbio, e alto mestre de uma família de quatro lindamente direcionada para o preenchimento do estereotipado e convencional ideal da “família perfeita” correspondido ilusoriamente pela sociedade ocidental. É este o vosso personagem principal, o vosso herói, o vosso vilão. É este o homem que, no meio de beijos, abraços e palmadinhas nas costas, gere um dos mais assustadoramente fingidos e perniciosos meios familiares e negociais. Tony Soprano, usualmente um observador de rara astúcia e nigérrima mira semicerrada, sente-se intimidado pela desnuda figura feminina de porcelana que o examina na anterioridade da tão inusitada e indesejada consulta. Antes fosse apenas esta peça de decoração.

“I don’t know. The morning of the day I got sick, I’d been thinking: It’s good to be in something from the ground floor. I came too late for that, I know. But lately, I’m getting the feeling that I came in at the end. The best is over. I think about my father. He never reached heights like me. But in a lot of ways, he had it better, he had his people. They had their standards, they had pride. Today, what do we got?”

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“Let me tell you something. Nowadays, everybody’s got to go to shrinks and counselors and go on Sally Jesse Raphael and talk about their problems. Whatever happened to Gary Cooper? The strong, silent type? That was an american. He wasn’t in touch with his feelings, he just did what he had to do. See, what they didn’t know is, once they got Gary Cooper in touch with his feelings, they wouldn’t be able to shut him up. Then it’s dysfunction this and dysfunction that and dysfunctionavaffancul!”

Debaixo da rígida e implacável carapaça de homem de negócios, preso nas convenções socialmente tatuadas daquilo que um verdadeiro homem pode ou deve ser, Tony Soprano caminha atormentado a partir do dia em que a breve possibilidade de ter chumbado na avaliação inconscientemente aceite na prejudicial infância se concretiza a olhos vistos. Aos seus, aos de quem o ama, aos de quem o segue, aos de quem o teme, aos de quem o odeia. Qual a credibilidade de um mafioso regularmente auxiliado por uma psicóloga? Um mafioso que, até então, ocupava a sua rotina de cansativas enumerações monetárias, preconceitos, churrascos tradicionais, jogos de bilhar, poker, gordos charutos, bebida, bares de alterne, requintados restaurantes e iates divididos com amantes, assassínios, uma danificada relação com a destabilizada figura maternal e uma particular dedicação aos patos que lhe povoavam a piscina. Um mafioso que, como uma grande parte dos homens, tem medo de se abrir emocionalmente, de não afirmar aquela ridícula dureza, de estar exposto a quebras depressivas relativas à crise de meia-idade e a tudo o que com ela chega: queda de cabelo, um corpo desconvidado, impotência e a inevitável sensação temporal de ultrapassagem – assistir  aos efémeros anos decorrerem desprevenidamente, marcados por uma rotura geracional contrastiva de princípios, tanto para melhor ou pior. Pois, porque dentro daquela casa, não está uma família perfeita, mas, sim, uma mulher presa num insatisfeito e interrogável matrimónio, uma típica jovem temperamentalmente inteligente envolvida nos incontornáveis problemas que à sua faixa etária dizem respeito e um obseo e problemático pré-adolescente desamparado na falta de ambições além dos videojogos. No sótão de cada estabelecimento ilícito, encontram-se os primos – Big Pussy, Silvio, Paulie e Christopher –, cujos traços de personalidade variam de inexperientes a impulsivos. No berço que o filho abandonou em tenra idade, está Olivia, a presa e a caçadora, uma mulher no fim da vida que tão rapidamente provoca pena e repulsa, dada aquela figura chorosa e fria. No canto mais obscuro da cidade, o venenoso e imprevisível conspirante Tio Corrado Soprano Jr. elege a melhor maneira de arrancar brevemente o império das mãos do sobrinho, sempre que necessário, intercalados vómitos, tiros, dúvidas e reprimidas neuroses, considerando as mais violentas e anéticas soluções. Mais que qualquer outra mulher, ao contrário daquilo que alegam todas as pontas de cabelo da humanidade, ramos da comunicação social e até manuais de ciência, dentro de uma complexada mente masculina, o drama é quase incomparavelmente superior. Homens têm medo de não corresponder ao que lhes é exigido. Homens têm medo de chorar. Homens assumem complexos altivos e territoriais com recurso à espontânea e tola violência que nem irracionais animais. Homens têm medo até de admitir proporcionarem prazer às mulheres oralmente. E, em pleno 2019, persistem em se indignar com os manifestos confrontantes às tendências de masculinidade tóxica.

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“Like fucking King Midas in reverse here. Everything I touch turns to shit. I’m not a husband to my wife. I’m not a father to my kids. I’m not a friend to my friends. I’m nothing.”

Na sua magistralidade temática, “The Sopranos” questiona e aprofunda o sensato “Porquê?”, abrigando-se no talento dos guionistas e do elenco que inunda o pequeno (grande) ecrã de diálogos, silêncios e ações fenomenalmente genuínos e interpretações impressoras de uma realidade jamais artificial, como poucas séries foram, são e serão assistidas a concretizar. Desde a encarnação maravilhosamente horrenda e insubstituível do falecido James Gandolfini, passando pela hipnotizante presença de Lorraine Bracco, pela controlada iminência raivosa de Edie Falco, pela corretíssima intervenção da Jamie-Lynn Sigler e do Robert Iler, até aos diversificados Michael Imperioli, Vincent Pastore, Steven Van Sandt e Tony Sirico, recorrendo convenientemente a John Ventimiglia, Jerry Adler e Drea de Matteo, terminando nos veteranos Nancy Marchand e Dominic Chianese. O visionamento de um produto audiovisual fictício é interrompido. Observamos a vida real. Suplementando a referida mestria com um perfeito trabalho de iluminação, um subtil trabalho de câmara, uma edição pacientemente precisa e extensos recheios de subtexto em cada momento, as (quase) 13 sólidas horas de “The Sopranos” enveredam pelas mais espantosas resoluções. Não fosse um entediante número de ocos personagens e a particular presença repetitiva e encanitante da Kathrine Narducci, a primeira temporada da série da HBO seria definitivamente irretocável. Posto isto, de pouco se extrai reclamações. A violência é gráfica, as relações e suspeitas são experienciadas pelas personagens e pelo público com igual grau de empirismo, qualquer das expressões faciais e convenientes esperas pela cena seguinte podem ter uma aceção subliminar, muito é escarnecido sobre os podres da sociedade e de quem a constitui e a finalíssima cena é uma das coisas mais enternecedoras que a televisão já fez.

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Lá fora trovejava, dignamente se comparando o monstruoso cenário atmosférico às águas resididas por Adamastores. O mundo é um palco pré-apocalíptico. É feio. A humanidade é feia, muitas das vezes sobrepondo o seu escombro malicioso à face altruísta e pacífica. Quem nos traz a esta selva pode ser tão ou mais venenoso que nós. E, caso seja, a nossa condição é colocada à prova durante o resto da vida. Sem que se tornem inválidos juízos de valor acerca dos seus malévolos comportamentos vindouros, a trajetória de Tony Soprano resumiu-se, nos primeiros meses em que o conhecemos, a um mero teste, a uma avaliação moral, social e, se quisermos, espiritual. A existência de um céu para os mais bondosos pode facilmente se assemelhar a uma utopia ilusória, impossível de efetivar, imposta pelos altos religiosos disfarçadamente sedentos por poder, sendo pragmática a sua desconstrução lógica, recorrendo em muitas das discussões à piada apropriadamente gratuita. Contudo, a hipótese da existência de um inferno será, para aqueles que jamais, seja numa inutilmente sangrenta guerra seja numa casual manifestação de solidariedade, descartam a feição desumana inerente a toda a espécie, uma breve facilitação para quem quer (ou para o que quer) que seja que regule a ordem do Universo (se é que o livre-arbítrio possa igualmente ser credibilizado). Sendo assim, Tony Soprano, enquanto um eterno pecador, poderá não se livrar dos malvados genes, porém, em função de morais responsabilidades, é lutando por um padrão educacional que não prejudique ou traumatize quem desmereça, quem não requisitou surgir e permanecer ali, na perigosa existência. Quem não requisitou viver. A última cena da primeira temporada de “The Sopranos” é um triunfo a todos os níveis. Dificilmente, após todos os infortúnios que um homem de família (por sinal, incongruente nas suas ideias e paranoico) pode ser alvo ao fim de um agoniante e frustrante dia, no qual nem pôde visitar a compreensiva psicóloga ou ter o prazer de se vingar dos familiares mantidos no pedestal de razão e respeito e que, no final do orgulho, o quiseram morto, nada substituirá um jantar com a mulher que ama e com as duas vidas de que é responsável (a singular bondade que um ser humano pode fazer surgir). Pois, enquanto o globo se autodestrói no outro lado da porta e a trovoada pouco nos abana, acompanhados por boa comida, os meus filhos, um dia avançados na idade e num processo de constituição familiar, estão em segurança e eu permaneço precisamente aqui, com uma mão agarrada à da minha esposa e a outra suspensa no ar, erguendo o meu copo ao encontro dos restantes e expondo uma disposição propícia para desejar “Saúde!”.

 

Nota: A-

 

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