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Vida de um Cinéfilo

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Three Billboards Outside Ebbing, Missouri (Três Cartazes à Beira da Estrada, 2017) - Crítica

     Uma mãe revoltada com o assassinato da sua filha adolescente, insatisfeita com o precário trabalho da polícia local, toma a decisão de alugar três cartazes à beira de uma estrada com a intenção e esperança que a investigação progrida.

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     O filme foi escrito e realizado pelo inglês Martin McDonagh, alguém sobre o qual nunca ouvi falar. O primeiro filme que vejo dele não podia deixar uma melhor impressão. Three Billboards Outside Ebbing, Missouri foi o vencedor do Globo de Ouro de Melhor Filme – Drama e é um filme fantástico. A começar pela riqueza temática. Trata-se de um fortíssimo comentário sobre a vida numa pequena e desconexa cidade e as respetivas mentalidades retrógradas que nela habitam e, mais especificamente, perspetivas preconceituosas, racistas e xenófobas, que nunca levam a boas relações dentro daquela comunidade.

     É um filme ainda muito beneficiado pelo brilhante guião e o elenco impecável e repleto de talento. Fora do comentário principal, é ainda uma história pessoal com um grande foco no desenvolvimento da sua protagonista e a sua (quase) desesperada busca por justiça, assim como a sua própria ideia da mesma. Os diálogos são qualquer coisa de fascinante, variando desde as irretocáveis cenas repletas do humor mais cínico e seco até aos deliciosamente longos e tensos confrontos entre personagens, acabando na perfeição com raríssimos momentos enternecedores. Nunca surge aquela sensação de uma bagunça cinematográfica. Globo de Melhor Argumento igualmente merecido.

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     O elenco é um dos melhores reunidos em 2017, também são poucos os filmes com a fácil capacidade de orquestrar inúmeros diferentes arcos, sem jamais deixar a história confusa ou arrastada. A Frances McDormand está sensacional! Ela está maravilhosamente fria, arrogante, apática, cínica, grosseira e afiada. É aquela mulher difícil de encontrar que, não isenta de momentos reveladores da suas ainda desconhecidas vulnerabilidade e fraquezas, nunca deixa que os outros se riam de si. É segura dela mesma e tem sempre uma resposta provocadora para dar, seja esta engraçada, ofensiva ou simplesmente seca. É a melhor interpretação da sua carreira desde Fargo, de 1996. Deem o Óscar a esta mulher!

     O Sam Rockwell dá mais uma performance que demonstra o quão subvalorizado este ainda é enquanto ator. Perante uma vitória nos Globos, torna-se evidente que finalmente receberá a sua tão merecida nomeação ao Óscar. É o mais eficiente retrato de um polícia frustrado, racista, xenófobo e ignorante perante uma comunidade que o despreza. O Woody Harrelson (Ma Man!) mais uma vez dá uma excelente interpretação, aproveitando todos os seus curtos momentos para dar o seu melhor contributo para a trama, transbordando carisma no processo.

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     O Lucas Hedges tem momentos muito memoráveis com a Frances McDormand e mostra novamente que tem uma futura carreira muito promissora. E ainda há boas participações de John Hawkes, Caleb Landry Jones e Clarke Peters. Ainda assim, o Peter Dinklage foi de longe o mais subutilizado. O personagem dele foi o mais mal escrito, sobretudo devido à brusca mudança de estado de espírito. O ator é um dos melhores da TV americana, mas mais valia que aqui fosse apenas um alívio cómico.

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     A fotografia é igualmente merecedora de aplausos. Foi aqui que notei uma maior influência do Martin McDonagh pela imensamente rica filmografia dos Irmãos Coen, para além dos diálogos e de alguns bem orquestrados takes longos. Ainda assim, este demonstra a sua faceta mais autoral no contraste (ou na falta dele) das diferentes cores sem vida e do radiante sol do Sul dos EUA. A banda sonora, mesmo sem uma grande extensão, fornece alguns momentos memoráveis, também graças à ótima seleção de música country. E, para fechar, o filme tem um dos melhores finais cut to black do ano.

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   Three Billboards Outside Ebbing, Missouri é uma divertida, provocadora, profunda e envolvente comédia dramática negra com a qual a nova geração de guionistas podem tirar diversas lições. Vale o nosso tempo por ser um relevante comentário sobre crime, justiça, racismo, compaixão e redenção.

 

Nota: A

Também podes ler a crítica no Cinema Pla'net.

 

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