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Vida de um Cinéfilo

Vida de um Cinéfilo

Uma Reflexão sobre "Actores", de Marco Martins

     Hoje decidi fazer algo diferente. Foram várias as vezes em que me apeteceu escrever sobre uma peça de teatro. Nunca aconteceu. Venho falar hoje de uma peça sobretudo única, que me provocou uma reflexão pela qual nunca me tinha visto, apesar de ser algo mais íntimo e introspetivo, na verdade, para o próprio elenco do que para o público em si. Actores não é a típica viagem dramática ao qual estamos acostumados nos teatros portugueses, mas uma experiência inesquecível.

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     Marco Martins, o realizador de Alice, de 2005 e São Jorge (ler crítica), de 2017, assume novamente o cargo de encenador, naquela que é uma obra autoral. Actores explora, segundo o próprio, a “máquina emocional que é o ator”, a avalanche de emoções pelo qual este passa, os diferentes e constantes desafios das suas descendentes ou ascendentes carreiras, os seus medos, receios, pesadelos, frustrações e arrependimentos profissionais ou pessoais e, consequentemente, a carga emocional, por muitas vezes indesejada, que se pode levar para o resto da vida. Ou seja, é um aglomerado dos melhores, piores, mais constrangedores ou hilariantes momentos das carreiras de cada artista, seja este cómico, dramático, rejeitado ou adorado pelo público nacional ou internacional.

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     O elenco é qualquer coisa do outro mundo. O espírito coletivo e química que os une tão fortemente é impossível de não se relacionar mutuamente. Somos lentamente puxados para dentro do palco e aceitamos as respetivas verdades e reflexões como genuínas, como nossas. Seja este processo a partir da mais inesperada e, por vezes psicadélica, coreografia, seja através do mais profundo ou vazio monólogo. É impossível não se identificar com alguém. Um Bruno Nogueira com as suas falhadas primeiras tentativas de stand-up em empresas. Um Miguel Guilherme deprimido e melancólico com as suas frustrantes participações em teatros nos Anos 80. Nuno Lopes com rápidas e estranhas transições entre obras clássicas nos palcos e telenovelas brasileiras. Carolina Amaral com o seu, digamos, “pseudónimo” e o seu maravilhoso talento interpretativo e voz capaz de calar as diversas peças de ópera. E Rita Cabaço naquela que é a interpretação mais animalesca, viva e deliciosamente oscilante que alguma vez vi em teatro português.

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     Sejam estas performances alegres, tristes, raivosas, agridoces, desejosas ou preguiçosas, o elenco provavelmente nunca se viu num tão aterrador ou simples desafio que foi interpretar-se a eles próprios e a uns aos outros. Pelo meio de bonitas narrações e de fluídas, organizadas e brilhantes mudanças cénicas, todo o ritmo é sustentado da maneira mais subtil possível. São 2 horas de puro entretenimento provocador e reflexivo que passa com a rapidez de 15 minutos, desde o mais interessante ou mundano casting até à tão épica e inesquecível conclusão que mais parece o terceiro ato de um filme de guerra. Assim que acabou, sentia que era capaz de rever umas 2 ou 3 vezes seguidas. Aliás, toda a peça tem muitos elementos cinematográficos. Sendo o Marco Martins também um dos melhores realizadores portugueses em atividade, é muito fácil identificar a sua ambição com este projeto.

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     Mas porquê tanta reflexão para além daquela que já é transmitida? Bem, meus amigos, não vou dizer quem, mas estava na mesma sala que eu, um membro importante e conhecido da nossa praça, um ministro que impossivelmente não passa despercebido. Montes de perguntas passam-me pela cabeça. Pensei durante toda a noite: “Será que é dada a devida e merecida atenção à nossa cultura? Será que há sequer suficiente interesse ou preocupação em levar o melhor do talento dos nossos artistas para todas as gerações? Primeiro do que levá-lo lá para fora, onde decerto está a ser mais valorizado? Para nós, um país que consome futebol como uma religião, remakes patéticos de clássicos nacionais como se fossem o próximo The Godfather, ou música reciclável constantemente a passar nas nossas rádios e televisões, será que damos suficiente destaque ou afeto por aquilo que se faz cá? Após muitas perguntas destas, chego à triste conclusão. Somos um povo imaturo, desinteressado, ignorante e desconexo, pouco aberto a mudanças e a novas experiências, novas rotinas ou novos hábitos, como consumir boa música, bom cinema, boa televisão, bom teatro ou boas discussões existencialistas e filosóficas, sejam elas sobre qualquer assunto.

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     Foi este o desabafo. Aproveito para aconselhar novamente para irem ver esta peça, sobretudo devido ao surpreendentemente baixo preço ao qual está exibido. Uma obra desta qualidade merecia ser exibida nas maiores salas de teatro nacionais. Malta de Lisboa pode assistir até dia 28 deste mês no Teatro Municipal São Luiz. As sessões no Teatro Municipal de São João, no Porto já estão esgotadas. Malta de Ovar pode ainda assistir nos dias 24 e 25 de fevereiro. Actores é uma obra original, introspetiva, íntima, provocadora, profunda e melancólica como poucas que já se fizeram no teatro nacional. Se tiverem oportunidade, se depois de 2018 esta peça voltar a circular, vejam, apenas vejam.

 

Podes ler as minhas críticas no Cinema Pla'net.

 

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