Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

Vida de um Cinéfilo

Vida de um Cinéfilo

Vice – águia na retaguarda

Em 2015, mesmo que a sua credibilidade de contador de dramas com leves lufadas de ironia e humor seco não fosse totalmente ignorada, Adam McKay aventurou-se numa ligeira aula de economia, rebaixando a sua própria seriedade com participações desnecessárias de personalidades do meio do entretenimento e com um particular trabalho de câmara pseudo-documental com uma lista de toques a aperfeiçoar. Todavia, ao contrário do que é costume rotular, criadores da indústria audiovisual nascidos e criados na comédia são dos mais capacitados de migrar para o drama.

Vice-2018-after-credits-hq.jpg

Quando muitas vezes se julga que o caminho certo deve passar primeiramente pelas palhaçadas e só depois “nos assuntos sérios”, o oposto confirma-se mais facilmente – mais difícil é fazer comédia do que drama –, sobretudo quando se beneficia de armas vindouras como a sátira e o conforto tópico. Ou seja, quando deparado com imensas expectativas e com as inesperadas pontuações baixas indicativas ao valor artístico, narrativo ou comercial de “Vice”, desilusão foi o sentimento mais iminente. Não que tal receção seja totalmente injustificável. Pois bem, o novo filme de Adam McKay não é isento de nódoas, mas não se trata de uma absoluta aula defeituosa de história ou de política.

Contar a história de uma das figuras mais controversas que já passaram na Casa Branca pode ser um ato encarado como mais uma deflagração que se faz no cinema desde que Donald Trump foi eleito. Com certeza foi também esse o caso, com certeza que a escrita e execução do realizador de “Anchorman: The Legend of Ron Burgundy” seja uma deliciosa oportunidade de exibir os paralelos traços entre os dois republicanos. Mas, ao lado de uma análise factual às decisões mais oportunistas e tangentes a um regime ditatorial tomadas por Dick Cheney (e consequentemente por George W. Bush), é pormenorizadamente preparada uma fácil e exemplarmente bem executada façanha que coloca o espectador no lugar do indeciso. O realizador tanto quer admirar como julgar a sua figura principal, obrigando o público a partilhar a dúvida. E tal jogada é uma das melhores a se tomar num filme protagonizado por uma figura altamente censurável, numa “tragédia” (como o cineasta americano preferiu descrever). Uma que, em particular, conduziu uma orquestra de mentiras e falsas propagandas.

MV5BZGU1ZjI2NWUtZjZkOC00MDJjLWIyYzgtYTczM2M0MzE3MD

À luz da fotografia desconvidativa e incolor do australiano Greg Frasier (funcional, mas ainda distante do apogeu em “Lion”), da banda sonora fervilhante e brusca do americano Nicholas Britell (lembrado pela mestria musical de “Moonlight”) e do trabalho de câmara minimalista e fundamentalmente centrado na expressão do elenco, “Vice” procura desenvolver o seu protagonista como um vencedor outrora falhado na reconhecida terra dos vitoriosos americanos, onde nenhum derrotado prevalece ou é recordado. A longa jornada partilhada com o futuro vice-presidente torna-se num mais que eficiente veículo que leva a uma inevitável admiração (ainda que decrescente e condicionada). Como diz o narrador, “ao contrário dos outros, o Dick Cheney via as oportunidades”, posicionando o personagem no topo da cadeia alimentar, no corpo da esbelta águia estadunidense, curvada, com os ombros movimentados e os olhos semicerrados à espera da presa.

E, como seria de esperar, aqui entra a fabulosa e medonha interpretação do Christian Bale. Não me cansarei de afirmar a mestria do quarentão galês cada vez que este transforma e, por consequência, danifica inacreditavelmente o corpo. Grande é o mérito de um ator (principalmente aos olhos de quem assiste a filmes em cima do joelho, nesta cultura de rápido e irrefletido consumo) após encarnar quase irracionalmente outra fisicalidade. Sim, o valor adicional superior a 20 quilos, o pescoço musculado, o cabelo rapado e as sobrancelhas branqueadas com certeza requerem coragem. Por alguma razão, não vemos os maiores galãs do mercado a recorrer a tamanhas bizarrias em nome do ofício (injustamente). No entanto, é nos seus momentos calados que Christian Bale pronuncia volumes, através de leves maneirismos com as mãos, de sossegados ajustes com os óculos, de subtis relances ao ambiente e às pessoas que o rodeiam, de carinhosos gestos e frases curtas com a família, de observações estratégicas na ponta escura da mesa. Destaque para o primeiro encontro com o futuro patrão e para a quebra final da quarta parede. Por alguma razão, é o melhor ator vivo.

MV5BMDlmNGM3ZTMtZTg4NS00ZWVkLWJhM2MtZjkzODJlYTY2Mj

No entanto, não se livra o Adam McKay de levar corretivos. Nalguns parágrafos acima, referi-me ao narrador, interpretado pelo carismático Jesse Plemons. Não que seja um território inexplorado pelo cineasta, mas uma clara excessividade. Não abortaria a conveniência de algumas informações, mas decerto que muito texto podia ser cortado, apesar da surpresa que nos é esperada. Não me lembro de ter tanta conexão repentina com um narrador. Aliás, maior parte dos problemas de “Vice” pairam sobretudo na edição. Agilidade é a maior característica do trabalho do Hank Corwin, visivelmente presente em “The Big Short”. Contudo, diversas montagens e conexões com o presente são estranhíssimas e alguns momentos pareciam tão severamente segmentados e acelerados que pareciam partes de um trailer. Já bons momentos incluem cortes demorados em cenas internas e uma transição genial para a metade mais importante da trama.

Ainda que perdendo gás esporadicamente ao longo das 2 horas, “Vice” vende-se principalmente pelo seu elenco. A Amy Adams é mais uma peça que escusa apresentações. A personagem pode ter sido certamente alterada para corresponder ao contexto feminista atual, calculando que uma abordagem fraca poderia enfraquecer a reputação do filme. Seja como for, a Lynne Cheney funciona perfeitamente, apresentando-se como uma mulher altiva, assertiva, maliciosa e justamente uma fonte elementar de confiança e estratégia do marido (com o qual constrói uma química sublime).

MV5BMmFjM2MyZDItZDdjOS00ZjgzLTgwNjktMTc0ZGYzODIwM2

O Sam Rockwell, mesmo sem uma prestação digna de nomeação ao Óscar, está ótimo enquanto encarna um inexperiente, infantil, entusiasta e verde George W. Bush. O Alfred Molina protagoniza uma das cenas mais engraçadas, um dos maiores exemplos da sagacidade satírica do Adam McKay (juntamente com uma cena pós-créditos). O Bill Camp tem uma sólida presença enquanto Presidente Gerald Ford. A Naomi Watts está completamente deslocada enquanto uma jornalista da Fox News. E o Tyler Perry afasta-se (felizmente) dos filmes da Madea.

O Steve Carell, ainda que não caracterizado o suficiente (acompanhado pelos habituais riso e sorriso da engraçadíssima figura que todos conhecemos e gostamos), executa uma versão brincalhona, grotesca, cínica e chico-esperta do Secretário da Defesa Donald Rumsfled. O personagem é um catalisador, uma porta de abertura para o mundo no qual Dick Cheney se tornaria especialista, resumindo perfeitamente as razões que levam aos homens mais poderosos do Mundo a não controlarem um possível acesso a um estatuto superior, a uma maior capacidade de controlo e autoridade. Quando Dick Cheney olha para trás, já toda esta filosofia foi demonstrada.

MV5BMGZiOGRmNzItNTQwZS00NWUwLTljMzEtMWZmZDliMDUyOT

“Vice” não é a atroz biografia que se tem descrito. Não corresponde às enormes expectativas que se criaram, mas não é a menos imaculada oferta entre os nomeados aos Óscares. É um prato cheio de ótimas interpretações, consiste num tom honesta e moderadamente satírico e uma lição não só sobre a ganância enraizada na política, como também sobre as motivações que lhe dão origem.

 

Nota: B

 

Facebook - Twitter - Letterboxd