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Vida de um Cinéfilo

Vida de um Cinéfilo

Walter 'Heisenberg' White - violência e a perda da insignificância

Decidi preparar algo diferente. Comemorando o 10º aniversário de mais um conteúdo globalmente adorado, este será o 1º de 3 artigos relacionados com “Breaking Bad”, em vez da tradicional crítica. Cada um destes será direcionado a 1 dos 3 melhores personagens da série.

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São várias as razões pelas quais as pessoas ficaram agarradas a “Breaking Bad”: a trama em si; os aspetos particulares e refrescantes do seu piloto; o seu estilo dramático e tenso de neo-western; os desenlaces em cada season finale; a banda sonora … enfim, a lista é interminável. Mas poucas eram as cenas que não se tornavam memoráveis sem os personagens multidimensionais, que provocaram em nós diversos estados de apreciação e debates morais. O mais impactante era o protagonista: Walter Hartwell White, também conhecido pelo seu nome de traficante - Heisenberg.

Vince Gilligan anunciou que o seu objetivo inicial era “tornar o Mr. Chips no Scarface”. E conseguiu. Ao longo de “Breaking Bad” observamos a mudança radical de um homem bom, mas aparentemente incapaz de controlar as suas infelizes situações diárias, num homem poderosamente ativo sobre as suas ações e as dos outros, mas irremediavelmente mau e egocentricamente crente nas suas próprias mentiras. Posto isto, questionemos: De que modo é que esta mudança ocorreu?

 

"Chemistry is ... well, technically, chemistry is the study of matter. But I prefer to see it as the study of chanfe."

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“Growth, then decay, then transformation.”

 

Dever Familiar e Masculinidade

Walter tem dificuldade em assumir o papel de patriarca e, consequentemente, sente-se embaraçado quando esse papel pode ser tomado pela mulher, pelo cunhado ou por um casal amigo. Não se consegue reconciliar com a mulher. O seu cunhado, até então, o macho da família que constantemente o ridiculariza, está numa cama com as pernas debilitadas. Walter sente-se desprotegido. Simultaneamente, lida com a difícil questão moderna acerca da masculinidade. Afinal, o que define um homem? O que define o macho alpha? No entanto, o seu negócio cresce cada vez mais. De seguida, (unicamente a favor desta situação) conhecer Gustavo foi uma das melhores coisas que lhe podia ter acontecido. Gus ajuda … e ajuda bem. Um homem não é o típico mulherengo ou polícia durão. Um verdadeiro homem é aquele que sustenta a família. Ponto.

As questões familiares que “Breaking Bad” levanta são importantíssimas. Afinal, qualquer homem de família já se questionou sobre aquilo que alguma vez fará pelos que ama. Para Walter, nenhuma ação é injustificável se o seu propósito é defender ou beneficiar o bem-estar da mulher e dos filhos. No entanto, o protagonista não tece limites às suas atividades. Progressivamente, as suas ações tornam-se cada vez mais difíceis de justificar. Walter é muito bom a mentir, mas as melhores mentiras que conta são as que conta a si próprio. Na series finale, descobrimos que não só estava a cometer inúmeras atividades bárbaras e macabras para salvaguardar a saúde financeira da família, mas também para satisfazer o seu ego. (Já lá vamos)

 

“What I do I do for my family.”

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Paralelamente, deixa de se sentir preocupado sobre as características que a sociedade atual “exige” que um homem tenha. Masculinidade está muitas vezes ligada a sexo e ao impacto que os homens têm nas mulheres. Como percebemos ao longo da série, Walter não tem qualquer característica física ou intelectual que atraia as mulheres de “Breaking Bad”. O máximo que vemos são aqueles vaivéns tensos (e até desconfortáveis) entre ele e a vice-diretora do liceu. Todavia, assim que este tenta a sua sorte é imediatamente repreendido. Por isso, não é possuir as mulheres usando dinheiro ou good looks que Walter procura. Não é masculinidade que lhe dará a sensação de poder. (Já lá vamos também)

 

Superioridade e Egocentrismo

Inicialmente, é verdade, Walter queria apenas angariar 737 mil dólares para garantir estabilidade futura da família. No entanto, durante o seu crescimento no mundo da droga e das ruas, uma coisa fica clara: “Eu tenho talento e poder.”. Walter pode não conhecer as ruas tão bem como Jesse, mas fica óbvio que nasceu para agir nele. E, mais importante, Walter estava pela primeira vez a agir, a controlar a sua vida e não a deixar dependente das escolhas dos outros. Finalmente disse: “Eu tenho domínio. Eu ganhei …”. Walter simplesmente não passou de um homem bom para um homem mau, mas sim de inação para ação. Aprendeu a se impor, a exigir respeito, mas também a manipular e a meter medo. Ganhou a coragem que precisava para sair da sua vida urbana banal e frustrante e começar a correr riscos, conquistando um senso de chefia e autoaclamação. Deixou de estar em perigo. Tornou-se no perigo.

 

“So, chiral. Chirality. Mirrored images. Active, inactive. Good, Bad.”

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“You clearly don’t know who you’re talking to, so let me clue you in. I am not in dange, Skyler. I am the danger! A guy opens his doo and gets shot and you think that of me? No. I am the one who knocks!”

 

O que é importante reter daqui é o conjunto de falhas e defeitos consequentes deste poder. A verdade é que tais não o tornaram mais forte, mas sim menos cauteloso e mais dependente dos fracos, perdendo a capacidade de fazer frente aos mais fortes. Walter jamais conseguiu intimidar o Mike ou o Gus. Estes demonstram-se mais inteligentes, pois sabem sair de cena. Walter não quer trabalhar com um beto da ciência experiente em poesia e em café. Ao invés, quer trabalhar com alguém inferior, alguém que lhe permita encarnar aquela presença totalitária, abraçando o seu longo, porém frágil egocentrismo e superioridade.

O Hank jamais teve pouca consideração pelo Walt. Sempre adorou e teve um enorme respeito por ele. Simplesmente armava-se em engraçadinho como o alívio cómico que era, nunca sequer achando que este seria capaz alguma vez de se meter no mundo da droga, tanto devido à sua inexperiência e decência ética. Walter queria provar ao cunhado que este o subestimou. Não admitiu que o falecido Gale recebesse os louros pelo seu trabalho. É então que comete um dos seus maiores erros, impulsionado por uma irracional burrice, álcool e pela proteção do seu tão grande, mas tão fraco orgulho: “Esse teu génio … talvez, ele ainda esteja por aí”.

 

Legado, Nome e Morte

Ao longo da série, vários foram os simbolismos para demonstrar a transformação moral do protagonista: o urso de peluche rosa, o novo (e badass) visual e as cores da roupa. Alguns apontam para o facto de Walter vestir roupa cada vez mais escura no progresso da série. No entanto, aquilo que acho que tem mais impacto é sem dúvida o amarelo. Tal como “The Godfather” adota o laranja para demonstrar as iminentes situações de perigo, “Breaking Bad” utiliza o amarelo. O amarelo vivo está obviamente nas batas de produção de droga, nos dentes da prostituta, no prato partido, na mostarda na bata do oncologista, no carro do Krazy-8 e, claro, no casaco do Jesse e na camisa do Walter. A camisa, especificamente, pode ser vista, assim como outras, no decorrer da série. Mas, no caso do Walter, o único perigo que indica é ele próprio. Este tanto a usa no piloto como no episódio em que encomenda a morte dos prisioneiros. Assim, reforça-se o enorme e complexo arco. Walter adota o alter ego de Heisenberg: o Rei das Metanfetamina, o Pai da Crystal Blue. Os próprios nomes são extremamente simbólicos: Walter Francis White foi um ativista de direitos civis dos afro-americanos, enquanto que Werner Karl Heisenberg foi um físico teórico alemão envolvido na produção da tecnologia nuclear.

Walter transformou-se num monstro. Os membros iludidos da família descobrem-no. O Hank desenvolve um ódio pelo cunhado e, apesar dos seus esforços, é morto a sangue frio pelo Tio Jack. O gang dos supremacistas brancos toma controlo de toda a operação e rouba tudo. E o Jesse não se podia arrepender mais de o ter conhecido. Perdeu aqueles massivos barris de dinheiro e a família detesta-o. No fim, o Walter não tem nada. Ou terá? Se há coisa que aprendemos com “Breaking Bad” é que o verdadeiro poder não está no dinheiro, nem em enormes festas com mafiosos e mulheres em bikini, nem em tendências homicidas e psicopáticas … mas no nosso nome. Se o conseguimos tornar em algo absolutamente inquebrável, tornamo-nos imortais. Aí sim, somos poderosos. Walter cria um Império, cumprindo todos os seus objetivos: a brutal vingança pela morte de Hank; um negócio maior que o do Elliott e da Gretchen e o milhão de dólares que a família receberá quer queria quer não. Na sua morte, Walter sente-se totalmente satisfeito. Quer dizer, como não sentir? Conseguiu tudo aquilo que queria. Talvez a única tristeza que lhe passa pelo coração será a melancolia e saudades que tem pelos seus dias de glória - os dias em que ficava horas no deserto a cozinhar metanfetaminas.

 

“Jesse, you asked if I was in the meth business or the money business. Neither. I’m in the Empire business.”

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“-Are you ready? Now, say my name.

-Heisenberg …

-Your’re goddamn right!”

 

Durante os episódios finais da série, apercebemo-nos que escolhemos o lado moralmente errado. Escolhemos defender um injustificável assassino que ainda comete os erros de confiar nas pessoas erradas e de destratar quem menos merece. Mas não há problema. A culpa não é nossa. É do Vince Gilligan e do Bryan Cranston, que contribuíram com unhas e dentes para a criação de um dos melhores conteúdos televisivos já feitos. “Breaking Bad” é uma obra-prima da televisão americana e, tanto ela como o próprio Walter White, estarão eternamente nos nossos corações. Quer queiramos quer não.

 

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