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Vida de um Cinéfilo

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Wind River (2017) - Crítica

     Cory, um caçador, e Jane, uma agente do FBI, unem forças para investigar um homicídio ocorrente nas largas e misteriosas montanhas de neves de Wind River, no Wyoming.

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    O filme foi escrito e realizado pelo Taylor Sheridan, aliás, este é apenas o seu segundo trabalho como realizador depois de escrever ótimos filmes de crime como Sicario e Hell or High Water. O seu talento para desenvolver um mistério e escrever bons diálogos é inegável. Os seus dois últimos guiões são ótimos e têm ambos algo importante a dizer. Se Sicario e Hell or High Water faziam comentários sobre o mundo do crime e a moralidade (ou a falta dela) dentro de um país ou comunidade financeira ou espiritualmente limitada, Wind River tem maior parte dos mesmos elementos, mas num contexto mais triste e deprimente. Sobretudo, é um filme sobre o comportamento humano dentro de uma cidade isolada e os seus respetivos anseios por “não conhecer mais nada”, o medo de estar desconexo do resto do mundo e não poder ter o mesmo que os outros têm. Nada é mais humano do que a nossa inveja ou falta de humanidade. Regularmente, são feitas algumas piadas sobre Las Vegas e Los Angeles, comparando as duas cidades quentes à terra selvagem, inóspita e gelada que é o Wyoming. E eu que pensava que um filme igualmente frio ao The Revenant era impossível.

     Wind River lida também com a questão da ainda atual e forte rivalidade entre a população nativo-americana e os ditos “verdadeiros americanos”. A visão que o Taylor Sheridan imprime é um pouco pessimista, mas apropriadamente alarmante. O Gil Birmingham é o principal motor de emoção. A sua angústia é muito humana e comovente. Conhecemos um homem injustiçado e consequentemente amargurado.

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     O destaque do realizador consegue se espalhar por diversos temas. O cuidado narrativo é mantido constantemente apesar da riqueza temática que nunca parece mal equilibrada. O Taylor Sheridan sabia perfeitamente o que estava a fazer. O estilo de câmara dele não foge muito dos planos médios usados para diálogos, típicos de um filme investigativo. Mas quando o filme vai para as montanhas, os shots capturados são alguns dos mais belos de todo o ano. A fotografia fria e limpa do Ben Richardson é sensacional! As vastas capturas horizontais raramente precisam de planos ao nível do olho dos personagens, captando a dimensão selvagem e assustadora daquelas solitárias e silenciosas montanhas de neve.

     A banda sonora é um show à parte. Imaginem uma melodia de um filme de terror: um violino aparentemente estragado, uma inesperada e desconfortável subida de tom ligeiramente estridente e uma forte percussão alpha nas cenas de maior tensão. Tudo isto torna Wind River num filme frenético com uma forte aderência à ação blockbuster, sem nunca deixar o tom abrupto. As cenas de ação são inesperadas e extremamente tensas, muito graças à impecável edição.

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     No entanto, como já disse, Wind River é um filme triste. É uma história emocionalmente pesada e irá facilmente comover ou magoar o seu público. A frieza tanto literal como metafórica está sempre presente e caracteriza todos os personagens.

     O Jeremy Renner está irretocável. É uma performance muito reservada e introspetiva, assim como o próprio personagem. A dor e o compromisso que este carrega são muito verdadeiros, logo ficamos imediatamente do seu lado. Ele tem um lado de caçador impiedoso extremamente inteligente e experiente, enquanto mostra ocasionalmente o seu verdadeiro lado do homem cansado, pessimista e quebrado pela enorme perda que sofreu injustamente. Esta interpretação certamente estará no topo da sua carreira.

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   A Elizabeth Olsen evidencia muito bem o lado inexperiente, ignorante, ingénuo e amedrontado da personagem que tenta a toda a hora ser a agente mais badass do ambiente, sem se aperceber que a cidade onde está tem limitações fora do seu controlo. E essas mesmas limitações são regularmente caricaturadas e criticadas pelo Graham Greene, que tem um humor rude e cínico muito engraçado. É um polícia muito seguro de si que, no entanto, se sente desiludido por viver numa cidade limitada quanto aos seus recursos de justiça.

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     O Jon Bernthal está também no filme, mas, na verdade, não faz muita coisa. Mesmo sendo um bom ator, o personagem podia ser interpretado por outro qualquer. Quanto ao mistério e à investigação em sim … não há nada que eu possa dizer, a melhor maneira de se apreciar um bom filme destes é completamente às cegas.

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    Wind River elabora uma discussão importante sobre o seu país para os dias de hoje, enquanto consegue ter leveza e momentos engraçados graças ao excelente guião de um excelente guionista que se estabeleceu como um excelente realizador. É triste, emotivo, tenso, tem uma criação de ambiente impecável, ótimos personagens e um ótimo mistério central.

 

Nota: A

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