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Vida de um Cinéfilo

Vida de um Cinéfilo

Wonder Wheel (Roda Gigante, 2017) - Crítica

     Anos 50, a história segue uma mulher casada e infeliz que se envolve com um nadador salvador. Quando a sua enteada volta para casa de surpresa, inicia-se um enorme descarrilhamento nas vidas de toda a família.

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     O filme foi escrito e realizado pelo Woody Allen, um realizador magistral que, mesmo sem sempre nos oferecer o melhor de si, utilizando novos ou clássicos métodos, consegue ainda surpreender o seu público com tudo aquilo que faz. O facto deste homem ter a mão em mais um projeto audiovisual é razão suficiente para receber atenção. Facto, o Woody Allen continua a fazer ótimos filmes todos os anos, reunindo novos atores para lhes impulsionar a carreira e elevar técnicas de filmmaking que só ele sabe fazer. As comparações a Café Society, do ano passado, são inevitáveis nesta hora. Os dois filmes decorrem mais ou menos na mesma altura e abordam arcos semelhantes. Dramas existencialistas sobre o ridículo do comportamento humano, triângulos amorosos, diálogos tragicómicos e uma breve participação da máfia. Café Society tem muitas pontas soltas e é até um filme um pouco inchado, oscilante e indeciso. Wonder Wheel dá a impressão de ser aquele projeto que o Woody Allen queria inicialmente fazer. Alguns arcos reaparecem, mas feitos de uma maneira mais organizada. E é sempre bom ver um filme organizado e focado.

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     Os diálogos são tipicamente woody allenescos. Volta a estar presente o charme irresistível nas palavras do narrador e dos personagens principais, assim como uma comédia por vezes agressiva que opta por ir no caminho do chocante e do desconfortável. São poucos os realizadores autorais que sabem escrever discussões tragicómicas desta maneira.

     Por falar em discussões, o trabalho de câmara é sensacional. O esforço e dedicação vai do mais pormenorizado close-up na cara dos atores até à mais bela, colorida e inocente paisagem da feira popular e da praia. Há planos sequência sensacionais que não podiam passar despercebidos. A câmara flui com o elenco e são criadas discussões frenéticas de 10 minutos sem cortes. Há mudanças sensacionais da fotografia sem cortes e, maior parte, delas ocorrem quando um personagem está a dar um extenso monólogo. O trabalho do fabuloso Vittorio Storaro, que trabalhou nos filmes Apocalypse Now e The Last Emperor, é de tirar o fôlego. Juntamente com o do Roger Deakins, em Blade Runner 2049 (ler crítica), é o melhor do ano. A atenção nas cores primárias e nos tons acinzentados e acastanhados fortemente característicos dos Anos 50 são pormenores lindíssimos.

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     O elenco não podia estar mais dedicado. Os atores desenvolvem juntamente com o realizador um senso de espaço muito realista enquanto interpretam o texto de maneira exemplar. São elencos como este que os jovens atores deviam ter em consideração. A que mais brilha é, sem dúvida, a maravilhosa Kate Winslet. Imediatamente na primeira cena, somente com um ar cansado, infeliz e extremamente stressado, ela vende a personagem. Por momentos, parece que vai ter um enfarte. O foco está todo nela: depressão, desgaste, frustração e, sobretudo, uma ingenuidade estranha e indecisa entre os seus desejos e as suas regras. Poucas atrizes conseguem marcar a sua presença desta maneira. A interpretação lembra muito a da Cate Blanchett em Blue Jasmine, também do Woody Allen, sem nunca parecer uma imitação, claro.

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     O Justin Timberlake surpreende cada vez mais. Ele continua muito romântico, apaixonado, vívido, charmoso, mas desta vez com uma ambiguidade muito interessante e algumas camadas inesperadas. O Woody Allen dirigiu-o impecavelmente. Quero ver mais ele!

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     O Jim Belushi está impecável como um homem bronco, vulgar e com problemas com álcool e dinheiro, mas com boas intenções e sentimentos genuínos pelos seus. É um homem desprezível em certos aspetos, mas o ator consegue puxar o interesse do espectador, ao invés de o rejeitar.

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     E a Juno Temple está igualmente de aplausos. A atriz complementa a trama com uma maior ingenuidade, inocência condicionada, burrice, falta de desenrascanço e uma estranha afeição por aqueles que a desprezam.

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     No entanto, há algumas cenas em que personagens passageiros decidem aparecer apenas porque o realizador decide recapitular ou acelerar a história. São momentos excluíveis e desnecessários. E o personagem Richie, o filho da Kate Winslet, é problemático. A sua piromania é muito interessante e até serve como um elemento simbólico para toda a depressão na vida quotidiana dos personagens, mas este acaba por nunca ir além disso. É um jovem mal comportado e desequilibrado, mas não serve de muito mais.

     A banda sonora composta à base de puro jazz dos Anos 50 é uma das mais agradáveis do ano. A música ajuda a contar a história e acompanha, como deve ser, as emoções dos personagens.

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     Wonder Wheel pode não ser um dos principais exemplos do enorme e magistral talento do Woody Allen, mas está muito perto de ser. Para além de ter ótimos personagens, diálogos, composições visuais e escolhas musicais, é a prova que a idade não é sinónimo de desleixo.

 

Nota: A-

Filme visualizado no Lisbon & Sintra Film Festival

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2 comentários

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    Francisco Quintas 27.11.2017 21:12

    Estreia já em Dezembro ;)!
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